COLUNA OPEN LOOK - A culpa não era de D'Antoni


Varrida nos playoffs para o maior rival, contratação do free agent mais cobiçado da última off-season e um fraquíssimo recorde de 8-12 nas primeiras 20 partidas dessa temporada. Esses ingredientes acenderam o sinal de alerta na cúpula do New York Knicks e fizeram os torcedores e analistas mais apressados elegeram um grande culpado: o treinador Mike D'Antoni.

Criou-se uma grande espectativa para esta temporada, os mais otimistas falavam em brigar por título. A equipe ainda perdeu mais uma até que o técnico, assumidamente "desesperado" pelo time "estar jogando muito mal", testar o até então desconhecido Jeremy Lin. O resto da história todo mundo conhece... Conhecemos da linsanity, a equipe engatou uma sequência de vitórias e voltou à zona dos playoffs. O mantra da vez é que o armador sinoamericano salvou o emprego do head coach do New York.

Isso pode até ser verdade, pois a direção da franquia, encabeçada pelo GM Donnie Walsh, nunca foi lá muito coerente e adora jogar para a galera (e para Spike Lee). Mas, se olharmos atentamente, a conclusão é lógica: a direção e até mesmo os astros Carmelo Anthony e Amar'e Stoudmire têm bem mais culpa no cartório do que o treinador e seu chamativo bigode.

Antes de mais nada, o Phoenix Suns de D'Antoni é provavelmente o time mais estudado da última década. Todo mundo conhece suas principais qualidades e defeitos. Assim sendo, qualquer executivo da NBA tem obrigação de conseguir selecionar peças que se encaixem nesse sistema até mesmo em uma pelada no Aterro do Flamengo. Mas o que fizeram Walsh e sua turma? Justamente o oposto.

D'Antoni teve que penar por dois anos esperando o Knicks limpar sua folha salarial. Teve a decepção de sonhar com caras como Lebron James, Dwayne Wade ou Chris Bosh e acordou apenas com seu velho conhecido Stat. Sem as estrelas tão sonhadas pelo projeto megalomaníaco do Knicks, ele teve que colocar a mão na massa e fazer o que faz de melhor: achar jogadores que se enquadrem em sua filosofia de jogo e transformar um bando de desconhecidos em um time competitivo. Foi assim que Raymond Felton se tornou um armador de 17/9 e chegou a ser cogitado no ASG, Gallinari finalmente confirmou o potencial esperado quando foi draftado e Wilson Chandler se tornou uma espécie de novo Shawn Marion, com uma defesa não tão forte, mas muita energia em quadra. Some-se a isso que o treinador conhece o jogo de Amar'e melhor que sua mulher, e você tinha uma engrenagem funcionando perfeitamente.

Era o suficiente para disputar com os tops do Leste? Claro que não, mas era muito mais prudente tentar apenas melhorar a qualidade das peças e esperar as próximas off-seasons para usar o espaço no cap e trazer mais estrelas. No entanto, o Knicks se desesperou com o Big Three do Heat e apertou o botão do apocalipse na megatroca com o Nuggets, que trouxe Melo e Chancey Billups para o time, mas mandou todo o bom elenco de role players que o técnico havia garimpado. Pior, escolheu o pior all star possível para ser seu FP.

Com o sucesso do Boston Celtics e o primeiro ano para lá de positivo do Miami Heat, fica a impressão de que é fácil reunir duas ou três estrelas e ser campeão. Mas não é bem assim. É preciso um esquema que explore as maiores qualidades de cada um e, ao mesmo tempo, que os jogadores tenham a capacidade de deixarem seus egos de lado e se sacrificarem (diminuindo seu número de arremessos, executando alguma tafera defensiva desagradável e mantendo o vestiário sob controle) em prol do time. Caras como Paul Pierce, Kevin Garnett, Ray Allen, Lebron James e Dwayne Wade têm inteligência o suficiente para isso. Mas quem acompanha a carreira de Carmelo sabe que ele é tão egoísta, mas tão egoísta que faz seu ex-companheiro Allen Iverson parecer a Madre Teresa de Calcutá em quadra. Além disso, Amar'e havia se tornado o Rei de Nova York depois de passar a vida toda na sombra de Steve Nash no meio do Deserto do Arizona e não parece muito feliz em dividir toda essa atenção.

Além do problema de egos, que é grave, os dois não funcionam bem juntos e contar com Iman Shumpert, Toney Douglas e o cadáver de Mike Bibby como únicas opções para a armação não deve ser muito animador, especialmente quando é justamente o armador que faz todo o esquema de D'Antoni funcionar.

O run'n'gun de D'Antoni é pautado pelo uso exaustivo de bloqueios para o pick'n'roll e o pick'n'pop, a jogada mais básica de um time de basquete. No entanto, é preciso um armador que consiga manter o drible vivo após receber os bloqueios e tenha capacidade de infiltrar para buscar a pontuação, acionar um dos jogadores de garrafão ou ainda achar um open look na linha dos três pontos. Parece fácil, mas essa é uma tarefa bem complexa. Por isso, víamos Shumpert e principalmente Douglas tendo atuações ridículas e forçando um sem número de arremessos, já que não tinham QI de quadra para fazer a engrenagem girar. Lin não é Steve Nash, não é um gênio da posição, mas é um PG com as qualidades necessárias para jogar sob o run'n'gun. Não é à toa que, desde que ele ganhou minutos de titular, a equipe tem um recorde altamente positivo, portanto. Acidentalmente, D'Antoni tirou da cartola justamente a peça que faltava para o time e, com a ausência das duas estrelas, teve tempo o suficiente para fazê-la funcionar.

O problema é: com Melo e Amar'e de volta, como o time fica? Para Stoudmire não será um problema tão grande, ele vai parar de receber bolas idiotas e não será isolado com tanta frequência como no começo de temporada. Recebendo passes no pick'n'roll ou pick'n'pop, ele consegue colocar todo o seu enorme arsenal de jogadas a serviço do time e render seu melhor, embora ainda haja o problema de jogar junto com um pivô de verdade, da mesma forma que ocorreu quando dividiu o garrafão com Shaq. Mas a situação de Carmelo é mais delicada: ele é bom demais para ser apenas um dos shooters desse esquema, mas não vai poder voltar a ficar tanto tempo com a bola, sob pena de quebrar inteiramente o ritmo da equipe, algo imperdoável no esquema altamente coletivo de seu treinador.

Com a capacidade técnica e atlética que tem, ele poderia muito bem ser o mismatch que faria a diferença entre o Suns e o Knicks. Ora poderia ser um jogador de perímetro importantíssimo, ora poderia estar no garrafão usando seu atleticismo e jogo no post. Mas será que Melo, que nunca seguiu esquema de jogo nenhum, tem a inteligência necessária para adaptar-se e, ao mesmo tempo, adaptar o esquema ao seu jogo? Eu acredito que não. Se continuar com a mesma apatia e baixa produtividade vistas até o momento, o Knicks será apenas o que é hoje: um time que chega aos playoffs sem nenhuma chance real de brilha. E logo as cornetas do Madison Square Garden (e Spike Lee) estarão vaiando e pedindo uma troca. E todo o esforço de anos da equipe pode voltar à estaca zero, para o azar de D'Antoni, que seguirá sem a chance de provar se pode conquistar um anel.

Lances livres

Samba de uma nota só - Criticar D'Antoni por não ter playbook para jogar em qualquer outro estilo que não seja o seu run'n'gun é justo. Mas ninguém pode dizer que ele não está tentando melhorar dentro de suas limitações. Sabendo da incapacidade que tem para armar defesas, trouxe para ser seu auxiliar Mike Woodson (ex-HC do Hawks) e os resultados já estão aí, pois o Knicks tem a 11ª melhor defesa da liga, marca bem significativa para um time de D'Antoni. E, no ataque, o treinador abandonou a filosofia "seven seconds or less", segurando mais a posse de bola e trabalhando um pouco mais as jogadas de ataque. Isso ajuda especialmente nos finais de jogos, com o time buscando mais jogadas de segurança e ganhando jogos apertados desde que Lin entrou.

Fase ou talento - Óbvio que Jeremy Lin provavelmente não vai manter o seu atual nível de jogo, que é digno de um all star. Mas afirmo, com razoável certeza, de que ele seguirá como um titular importante do Knicks por um bom tempo. É um jogador talentoso, tem personalidade e parece que seu foco é melhorar o que ainda não faz bem, algo essencial para jovens jogadores. Estamos vendo o surgimento de mais um bom armador nessa geração que já tem nomes como Rajon Rondo, Derrick Rose, Russell Westbrook, Stephen Curry, Kyle Lowry, Kyrie Irving e Rick Rubio, entre outros.
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