
Saber a hora de desfazer um time campeão é quase tão importante quanto saber montá-lo
Mavs, Lakers, Celtics e Spurs. Esses quatro times têm em comum o fato de serem os últimos campeões da NBA. Outra afinidade é o fato de todos verem seus astros no ocaso de suas carreiras. Mas as semelhanças param por aí: enquanto as duas franquias mais tradicionais da liga insistem em prolongar a duração de times que já não têm chances reais de título, os rivais do Texas conciliam com rara habilidade os resultados atuais com a renovação a médio prazo.
De todas eles, quem cometeu o maior número de erros sem dúvida foi o Celtics. O primeiro e mais grave foi não perceber que a janela em que essa base poderia ser campeã se encerrou nas finais de 2010, contra o Lakers. O segundo foi trocar Kendrick Perkins, algo que piorou sensivelmente a defesa de garrafão da equipe e, de quebra, ainda abalou a união fora do normal que esse elenco mostrava, ao ponto dos próprios jogadores afirmarem publicamente que estavam tristes com a saída do companheiro e que isso os estava prejudicando. O último e mais recente erro é não confiar em Rajon Rondo como o futuro da franquia. Poucos jogadores agregam tanto a uma equipe quanto o armador do Celtics e seu jogo solidário, que visa muito mais envolver os companheiros do que resolver sozinho, pode ser um atrativo e tanto para convencer outras estrelas a vir para o TD Garden.
O Lakers também não fica muito atrás. Mike Brown é um bom técnico, mas sua filosofia, de muita defesa e pouca organização no ataque, parece ser justamente o oposto que esse elenco precisava. Era hora de um jogo mais coletivo, onde Gasol e Bynum crescessem cada vez mais de importância na equipe, mas Brown permite (ou talvez até estimule) que Kobe Bryant jogue de maneira egoísta, com uma seleção de arremessos ruim e sem envolver seus companheiros. O resultado é um ataque ineficiente e previsível, que depende dos cada vez mais raros milagres de sua estrela ou de jogos onde a bola naturalmente caminhe para o seu garrafão, um dos três melhores da NBA. Além disso, a nova CBA vem cobrando seu preço. O contrato estrosférico de Kobe, somado a valores excessivos para jogadores como Metta World Peace (outra conhecido como Ron Artest), Steve Blake e, pasmem, Luke Walton fazem com que o restante do elenco seja formado por jogadores de nível D League.
O melhor de todos nesse processo tem sido o Dallas. Mark Cuban nunca teve medo de arriscar e, sabendo que a geração de Dirk, Kidd, Marion e Terry em breve não estará mais a disposição, trabalha com afinco para trazer Deron Willians e Dwight Howard para o Texas na próxima temporada. O time abriu mão de renovar com Tyson Chandler, DeShawn Stevenson e JJ Barea após conquistar seu primeiro título, pois sabia que os três estariam supervalorizados e engessariam o cap da equipe. Agora, o time manteve um nível bastante razoável de competitividade, podendo até surpreender novamente nos playoffs, e está bem encaminhado para tentar montar uma dinastia no Oeste.
O Spurs, por sua vez, faz o que pode com o que tem. Uma franquia pequena não pode sonhar em montar esquadrões com toda essa facilidade, mas eles têm Greg Popovich, talvez o melhor técnico da história da NBA, e sabem que farão o melhor possível com peças não tão caras. É possível que Tim Duncan se aposente ao fim da temporada, liberando bastante dinheiro para a franquia trabalhar e Manu Ginobili, outro trintão, só terá mais um ano de contrato. Além disso, a equipe ainda tem a possibilidade de anistiar o pesado contrato de Richard Jefferson quando quiser, liberando outros US$ 10 milhões. Ao mesmo tempo que vê uma boa margem de manobra nos próximos anos, Pop vai desenvolvendo os role players de excelente nível que sempre caracterizaram o Spurs. Gary Neal, Kawhy Leonard e Tiago Splitter vão se mostrando jogadores muito consistentes e perfeitamente integrados ao jogo da equipe e outros, como Dejuan Blair e Danny Green, também encontraram o seu espaço. Não se surpreenda, portanto, se o Spurs volte a ser um contender pouquíssimo tempo depois de perder o maior jogador de sua história. Enquanto Pop estiver por lá e a equipe continuar conseguindo anualmente steals nos drafts, os alvinegros do Texas não podem ser desconsiderados.
Esses quatro exemplos ilustram bem o dilema dos campeões. Pela própria cultura dos esportes nos EUA, é comum que haja uma grande reverência com atletas que foram importantes em conquistas para suas franquias. Por isso, muitos dirigentes acabam, por vezes, colocando os jogadores acima dos interesses da franquia. O Celtics, aliviado pelo fim do jejum, até hoje não teve coragem de desfazer ou, ao menos, diminuir a importância do trio formado por Ray Allen, Kevin Garnett e Paul Pierce, assim como o Lakers não sabe o que fazer com Kobe Bryant, um dos maiores nomes de sua vitoriosa história, mas que não é mais capaz de levar um time nas costas, embora não se dê conta disso. É preciso saber enxergar até quando insistir com times campeões. Caso contrário, corre-se o risco de virar um Detroit Pistons, um time temido que foi se enfraquecendo e hoje é um saco de pancadas no fraquíssimo Leste, justamente por estar amarrado há quase dez anos à geração de 2004 e insistir até agora em nomes como Tayshaun Prince e Ben Wallace.

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